O BAGAÇO DA LARANJA
Um, dois, três, quatro pivetes, saltaram a cerca de uma dessas casas residenciais
Localizadas no fim de bairro que se aproximam da habitação rural.
Atraídos por um laranjal
Que se destacava em meio ao denso pomar, estes lobos juvenis investiram
Contra a cerca de arame farpado e conseguiram adentrar a propriedade. O homem que desempenhava o papel de caseiro da propriedade carregava a alcunha de Zé Russo.
Tinha sempre uma cara de poucas amizades e vivia quase que isolado, morava sozinho e não era simpático a visitas, muito menos visitas inesperadas e abruptas. Era sabido que Zé Russo mantinha consigo armas de fogo, era ríspido, porém zeloso para com o terreno e tudo o que ali estava firmado, inclusive o pomar.
Sua casa ficava a cerca de cem metros do pomar. De sua varanda era possível avistar toda área periférica onde reinava o laranjal, nos fundos da casa ele conseguia ver a pequena lavoura de café.
Além de zelar pela conservação e manutenção do local, Zé Russo gostava de cativar pássaros silvestres tais como Curió, Trinca Ferro e Canário da terra.
Já dentro da propriedade, os pivetes perceberam um certo sossego no local, notaram que não houve resistência e que Zé Russo não estava em casa. Avançaram terreno a dentro e não sabiam qual fruta atacar primeiro.
Havia no pomar, melancia, cajá, manga, limão, jabuticaba e por fim o majestoso laranjal.
As laranjas estavam tão maduras, tão amarelas que parecia ser a reprodução minimalista do próprio sol.
Os pivetes não tiveram dúvidas, a decisão foi unânime. O primeiro alvo foi o laranjal. Eles não queriam somente saborear as laranjas, estavam decididos e prontos a entupir de frutas o bornal que atravessava seus ombros e adornava seus esquálidos corpos.
Chega ser raro ver um ser um humano atacar simples laranjas com tamanho barbarismo, a fome pelo fruto era maior que tudo, maior até que o obstáculo de descascar a pequena bola que guardava o néctar cítrico. Metiam a mão e dilacerava a famigerada laranja com as unhas pretas de terra.
Era um verdadeiro banquete, era uma verdadeira celebração de pivetes com estômago desforrado. Esqueceram até do maior risco que era a figura do ranzinza zelador da propriedade. Era apenas festa, laranjas, a pança sendo preenchida e sorrisos amarelos sendo abertos.
O tal Zé Russo estava do outro lado da chácara andando em meio ao cafezal, ainda não tinha conhecimento da pequena invasão.
Minutos depois, encerrou a andança pelo café, e foi em direção a sua casa.
Entrou, lavou as mãos e o rosto na pia da área de serviço, secou-se com uma toalha e foi até a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma jarra com água.
Enquanto a água descia pela goela, escutou distantes risadas e sons de folhas. Foi até a varanda que dava visão ao pomar e se deparou com os pivetes já com os bornais transbordados de laranjas.
A fúria foi instantânea pois não admitia que qualquer alma viva entrasse naquele local e muito menos bulisse com as frutas ou o que quer que fosse.
Rapidamente pensou em como neutralizar ou afastar os pivetes daquele local.
Por um momento pensou em descarregar a arma de fogo no couro deles, mas relutou.
Lembrou-se do seu estilingue usado para caçar pequenos pássaros no seu quintal, era feito com gancho de ipê amarelo e ao invés de usar pedras como munição, Zé Russo usava bolas de gude. Resolveu apenas "assusta-los"
Zé Russo se posicionou no canto da varanda e esticou seu estilingue até o limite de sua força, carregado com uma bela e rígida bola de gude, o estilingue foi disparado tendo como alvo o mais magricela dos pivetes.
Numa fração de milésimos a bola de gude atingiu seu alvo. Com a bola de gude acertando sua destacada costela, o pivete não teve nem tempo de perceber a origem da pelota e apenas se contorceu de dor feito um velho reumatico. Os outros moleques picaram a mula com os bornais cheios e o magricela ferido empreendeu uma dificultosa corrida afim de acompanhar os parceiros. Conseguiram chegar até o limite da cerca e a pularam. Salvaram seu bornal com laranjas e foram acudir o moribundo. Constataram rapidamente que o magricela estava bem e que apenas cultivava a marca da bola de gude em sua costela seca. Sem reclamar, o pivete magricela começou descascar uma de suas laranjas e ao dar a primeira mordida, disse que precisava chupar uma doce laranja para tirar o gosto ruim da boca.
-Rafael Martins-